04 Setembro 2009

Dia e Noite



Foi-se como vão-se as estações.
Como passam primavera e verão
para o início de outono e inverno.

No ritmo exato deste calendário cósmico
ilógico e perfeito
brotarão, com o vento, novos botões.

[Numa outra estação.


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08 Agosto 2009

De cinzas





É assim a carne quando queima
Corre o queimado de um lado para o outro, se bate, tenta se salvar, tenta fazer parar de queimar.
Mas não consegue.
Quem tenta ajudar, também não.
E a carne queima e queimará, até que tudo seja só cinzas.

Só depois, a paz.

28 Junho 2009

Queda Livre

Me deixei levar por uma força estranha qualquer
Uma dessas muitas maiores do que eu
Apenas fui
e cheguei onde você não estava

Fui me encontrar com alguma coisa que não morava lá
Fui me encontrar.
Perdida, perdia, perdi.
Foi o tempo que passou, e eu fiquei.

Me transbordava.
Mas tinha um copo só.
Um corpo só.

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03 Junho 2009

Polaridades



A diarréia verbal cessou.
As certezas viraram dúvidas, que viraram outro tipo de certezas.
O sabido virou ignorado.
A guerra virou silêncio.
O futuro virou presente e o presente virou história.
O amor continua sendo - amando-me e respeitando-me, todos os dias de minha vida.
E, como lindamente disse Samir Mesquita*,

Se você é não, eu sou sim ao que me espera.


(*Samir Mesquita é publicitário e escritor, e teve uma singular crônica publicada na edição de junho/09 da revista Cláudia - sim, revista "feminina" também é cultura)

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23 Maio 2009

Caixa Preta

Ainda procuro um motivo nas sextas-feiras à noite. A expectativa do que me aguarda no depois é ainda assustada, oca, ressentida, indignada.
Falta ainda resgatar aquele sentido maior que, qualquer pessoa (supostamente) adulta sabe, não se coloca na vida de ninguém mais.
Ainda me altero, sob pensamentos de como suas horas estão sendo vividas. Quais os planos, quais as companhias (ladras do meu tempo), quais os desejos, quais as estradas, quais os risos, quais as verdades e, sobretudo, quais os esquecimentos que lhe preenchem os dias agora.
Ainda luto contra as minhas lágrimas, que me vencem quando realmente querem, em horas frequentemente impróprias. Sou mais forte no decorrer do dia, do que logo que amanhece, ou depois que a noite chega.
Ainda evito o seu nome com as pessoas que ainda não sabem que você não faz mais parte da minha vida. Gostaria que elas não precisassem que eu contasse para saber.
Ainda recebo, com nós apertadíssimos na garganta, as intuições sobre como você está superando, rapidamente, este nosso breve momento, assim como as lembranças de momentos doces que viraram ontem sem que eu me desse conta.
Ainda não quis lidar com fotos e presentes. São carregados demais de presença.
Ainda não fiz as pazes comigo por ter me desfeito da sua velha escova de dentes. Ela ficava ali, como se você fosse voltar e foi difícil abrir mão desta mentira.
Ainda sobressalto quando lembro do final.
Ainda pareço inadequada, aonde quer que eu vá.
Ainda distraio as pessoas com meus superficiais momentos de tranquilidade e alegria.
Ainda me corta a alma a certeza de todas as tantas coisas que nós não iremos fazer.
Ainda sinto a necessidade de escrever textos ridículos na tentativa de esvaziar o coração, e abrandar os olhos e a voz. Até parece que a saudade, quando falada, se dissolve com um pouco mais de vontade.
Ainda te odeio por absolutamente tudo o que você deixou de fazer, e por todas as coisas que fez de errado. Sobretudo, sua imperdoável desistência resignada.
Ainda luto para me permitir te perdoar, pois sou quem mais precisa deste meu perdão.
Ainda luto para me permitir me perdoar, já que amor não correspondido soa demasiado patético aos ouvidos de quem viveu o que eu vivi.
Ainda me sinto digna de pena por sentir assim. Nem isto eu pude, ainda, conciliar. Descobri que o fato de conhecer o gosto intragável de perder um grande amor, não ameniza, em absoluto, os estragos de uma queda tão cheia de destroços.
Ainda sinto vontade de te enfiar o dedo na cara e acusar de todas as coisas, agora desnecessárias, que ficaram penduradas no meu peito. Ainda me falta esta coragem, porque sei que exporia ainda mais os meus já escancarados sentimentos.

Ainda. E o ainda não deixa de doer, também, por se saber adjetivo do que um dia irá passar.

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17 Maio 2009

Palavras

De verdade, eu não quero dizer nada. É de mim ser assim quando a incredulidade assola: a língua cala. Ocorre que eu tenho mais medo do que pode acontecer à minha alma e à minha saúde se eu não disser. Sendo assim, eu não quero, mas preciso dizer.

Preciso dizer que, de uma forma bem torta e masoquista, foi um grande alívio ter notícias suas. Foi bom saber que a dor de dente passou e que você já pode fazer café. Foi bom saber das coisas boas a meu respeito, e a respeito da vida que descobrimos juntos, ainda que elas tenham se perdido em meio a tantas observações amargas e injustas. É inútil agora eu fazer uma lista das coisas onde discordo de você e dos meus pontos de vista contrários, embora eu os tenha na ponta da língua. Esta é das dores mais dilacerantes: saber que já não te importa mais. Mesmo a minha indignação por ter recebido uma carta pública sobre assunto tão particular, já não tem força o suficiente para ser expressada.
Preciso dizer que nossos momentos mais simples eram o meu céu, e que por eles é que eu tinha a certeza de que a nossa vida juntos valia totalmente à pena.

Preciso dizer o quanto foi dolorido saber que você voltou a fumar. Se pudesse, eu tiraria pessoalmente os cigarros do seu alcance, tolo que pareça.
Preciso dizer que eu ainda acredito nas coisas boas todas que você merece, e que a minha torcida pelo seu bem continua tão intensa com sempre foi. Que me preocupo, como me preocupei. Que, sem escolha, aprenderei a me preocupar à distância, custe o que custar.
A tristeza é profunda, e mora em lugares distintos. Mora em não poder dividir os meus poucos amigos, já que isto independe de mim, e em ouvir, agora, que os seus amigos quiseram ser nossos (novidade grande, que nunca foi compartilhada). A tristeza mora em ser acusada de coisas que desde sempre foram radicalmente contra os meus princípios fazer (eu jamais afastaria você de quem quer que fosse).

A tristeza e a dor se alternam, e fica impossível distinguir uma da outra. A esta altura elas são para mim, mera semântica. Eu sei é do sentimento.
É irônico ao ponto de sangrar, vir a saber que não há poesia. Que não há sonhos divididos. Que não há planos em comum.
Não há de existir poesia maior para mim, do que lembrar dos momentos onde me emocionava, profundamente agradecida à Força Superior por proteger bem tão precioso, ao te ter dormindo, em paz, sob o meu teto e sob o meu abraço. Tem alguns poucos momentos que dão real significado à vida, e este era para mim, um deles.
Não há de existir sonho maior do que devanear ao som de cada expectativa de lugar a conhecer, de domingo a dividir, de beijos e emoções a provar, de novidades ainda não imaginadas a esperar, ansiosamente.
Não há de existir plano maior do que ter casado a minha alma, no dia em que te conheci, e continuar me sentindo casada em cada um dos nossos dias juntos. Entendendo que minha semana era importante, à medida em que traria a recompensadora felicidade do seu encontro.

Preciso dizer que eu entendo hoje, que fui profeticamente, uma ponte entre a vida que você tinha e a vida na qual você precisava chegar. Que eu tinha muito, muito medo quando nos desentendíamos por bobagens.
Preciso dizer que eu esperava, de verdade, que você me ofertasse a mesma paciência que teve de mim nos tantos momentos onde precisou, por tantos motivos diferentes.
Há algo no amor, o qual eu sempre acreditei não segurar duas vidas juntas sozinho, que me levava a crer. E crer, está sempre além de nós mesmos. É uma cola super bonder que me fazia zelar por algo que julgava inquebrável. Impossível de partir.

Na partida desfez- se a luz. Neste beco sem saída no qual você nos colocou, sem senão, sem talvez. Entendo que você se cumprimente pela coragem de haver assumido a responsabilidade do fim (ou este outro nome mais bonito que lhe deu), mas esta coragem nunca esteve em falta para mim. Tampouco a habilidade de pensar sobre os porquês. É que, quando a mim interessa lutar, me resta somente deixar para depois do final da fila, a possibilidade de desistir.

Esta escolha tem implicações, assim como as têm a sua coragem. A minha escolha implicava em administrar dentro do meu peito a sua já apontada distância, pois me faltava a inteligência em lidar com ela. Implicava em saber-te ríspido e descuidado, a despeito da minha insatisfação. Implicava em te ter como a minha melhor companhia, o meu verdadeiro companheiro. Implicava em imaginar, eufórica, todas as coisas que nos seriam possíveis, agora que a geografia nos privilegiava e havia tanto, tanto, a desbravar e conhecer, do mundo e, um do outro.
É por isso também, que eu preciso dizer. Porque a dor de ter sido colocada no passado destoa tanto das belas, imensas, expectativas reais que eu guardava para nós.
Preciso dizer que se lembre de manter a mente e o coração abertos às boas influências, que as suas orações fazem falta quando não acontecem.


Preciso dizer que não há ninguém com quem eu prefira ir ao cinema. Não há ninguém com quem eu prefira dividir a cama, ou um pensamento qualquer. Não há ninguém que eu quisesse tanto chamar, junto com a minha mãe, de "minha família imediata".
Preciso dizer que o terço da sua mãe é seu por direito, e eu sei o quanto ele é importante. Deveria estar, ao menos, com alguém mais próximo de você. Preciso dizer que a minha casa ficou toda estranha, porque falta um morador. Que a sua gratidão e amizade me ferem, pois não é o que quem tem amor espera em troca.

Preciso dizer que o último cartão de aniversário que você me deu, foi assustadoramente impessoal, que a ausência total dos seus "eu te amo", em momento algum me passou desapercebida, que você se fez mais distante depois de ter ficado mais próximo, e que quando você me escreveu "let the seasons begin", eu pressentia que não seria algo bom. Ficou um ressentimento pela sua falta de clareza comigo quanto a tudo isto.
Preciso dizer que eu ainda desejava com força, fazer muitas viagens com você.
Preciso dizer que a falta de notícias me mata lentamente. Não saber do seu dia, ou dos seus programinhas, ou dos seus desejos, ou do treino que te tirou do sono de madrugada, ou do baixo-astral que te bateu sem motivo aparente, ou do lugar onde você quer muito ir agora, ou da sua última briga com a Telefonica, ou dos eletrodomésticos que você ainda vai comprar.

Preciso dizer que eu sei da sua habilidade em se adaptar às novas situações e aos novos sentimentos, e que tenho absoluta certeza de que não tardará o dia em que o seu coração se verá totalmente apaixonado. E neste raciocínio me pego questionando o quanto você terá aprendido a lidar com pessoas de carne e osso, quando elas deixam o papel idealizado no qual as vestiu. Mas sei que isto não será importante, pois, neste dia, eu já terei sido colocada muito longe.

Preciso, por fim, dizer que eu acreditava vêementemente, que nossos problemas eram todos possíveis de soluções felizes. E isto me fazia enxergar nossa estrada ainda muito longa, muito próspera, muito plena (como tudo o que era nosso). E que eu não me contentaria com nada menos do que o homem doce, generoso, sonhador, íntegro e presente que conheci e, de livre e espontânea vontade, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, amei.

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16 Maio 2009

Pelos Ares

O amor é o ridículo da vida.
A gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora.
A vida veio e me levou com ela.

Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue. Bonita e breve, como borboletas que só vivem vinte e quatro horas.
Morrer não dói.

[Cazuza]



Ouvi o silêncio da casa,
e ele me disse que as pegadas não serão as mesmas na estrada,
que os retratos não serão os mesmos no álbum,
que as músicas tocarão outros dois,
que o que eu sinto já ficou pra depois.
No silêncio entendi pequenas coisas,
mas fiquei sem as grandes respostas.
O silêncio me deixou perplexo
me estapeou com enganos tão provisórios quanto um amor passageiro.
Silenciosamente passei, como uma gripe chata
que finalmente nos deixa livres para curtir a festa.

Sem silêncio e sem cerimônia fiquei sem ar,
como os peixes que se debatem fora da água.
As verdades já estavam, há muito,
em algum outro lugar feliz.
Ainda faltava garantir que os objetos passados
tivessem todos um destino acertado e elegante.
Não seria mais por muito tempo
que o silêncio me prenderia às indignações.
Eu silenciaria para o mundo, que não entende de desesperos.
Meu silêncio me diria as coisas reais e doces
das quais preciso para sobreviver à mim.

Silenciei, frente ao que não tem caminho, endereço, perdão.
O imponderável me tirou a espinha sem um pio.
A dor silenciou, a raiva silenciou, a escolha gritou.
O silêncio da casa disse que nela não cabia
e não caberia mais, jamais.